O Produto Interno Bruto (PIB) se consolidou como o principal indicador de mensuração da atividade econômica, mas sua utilidade não depende apenas da precisão técnica: está atrelada também à capacidade de traduzir a realidade regional. É justamente nesse ponto que o projeto de cálculo do PIB Estadual, dos Municípios e Trimestral, aliado à Tabela de Recursos e Usos (TRU) e a Matriz de Insumo-Produto (MIP), se revela essencial.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), assumiu, a partir de 1996, a liderança de um programa conjunto com os Órgãos Estaduais de Estatística, as Secretarias Estaduais de Governo e a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) para construir o Sistema de Contas Regionais (SCR). O projeto foi um avanço ao permitir a estimação do PIB de cada Unidade da Federação e, posteriormente, dos municípios, de forma metodologicamente integrada, homogênea e comparável entre si, atendendo à demanda crescente por informações regionalizadas. Essa uniformização garante que estados e municípios não apenas conheçam sua dinâmica produtiva, mas possam dialogar com as estatísticas nacionais e internacionais.
O SCR teve sua primeira divulgação em 1999, com a série de 1985-1997, e vem passando por revisões que incorporam recomendações internacionais, novas referências, metodologias e fontes de dados. Hoje, o PIB Estadual é calculado pelas óticas da produção e da renda, permitindo uma leitura mais ampla da economia. Essa evolução metodológica demonstra que medir a atividade econômica é um processo dinâmico de atualização permanente, que busca refletir as transformações da sociedade.
No Espírito Santo, o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) integrou-se ao projeto em 1997, assumindo a tarefa de calcular o PIB estadual em parceria com o IBGE. Desde então, vem atuando em conformidade com normas internacionais e alinhado às práticas das Contas Nacionais, mas sempre atento às especificidades locais. Para reduzir a defasagem de dois anos na divulgação dos resultados, o IJSN implantou ainda o Indicador Trimestral de PIB, capaz de antecipar tendências e apoiar decisões de curto prazo.
Contudo, o PIB sozinho é insuficiente para capturar a complexa rede de interligações da economia. É aí que a TRU e a MIP se tornam essenciais. Elas permitem compreender como os setores se conectam, quais atividades geram maiores multiplicadores de emprego e renda, e onde estão os gargalos que limitam o desenvolvimento. Ao detalhar fluxos de bens, serviços e renda, a TRU e a MIP oferecem insumos preciosos para políticas industriais, regionais e de inovação.
Não por acaso, estados como Paraná, Minas Gerais, Bahia e Ceará já vêm investindo nesse tipo de metodologia, reconhecendo sua importância estratégica. No Espírito Santo, a elaboração da TRU e da MIP de 2015 representou um marco. Pela primeira vez, foi possível identificar de forma estruturada os setores-chave da economia capixaba, com dados detalhados sobre 81 produtos e 35 atividades. Trata-se de um salto de qualidade para a formulação de políticas públicas, capaz de orientar investimentos em áreas que mais dinamizam a economia.
Apesar dos avanços, ainda há desafios. A defasagem dos dados continua sendo um obstáculo para decisões rápidas. A integração entre órgãos de estatística e governos precisa ser fortalecida, garantindo atualizações mais frequentes e maior transparência no acesso às bases de informação. Além disso, a sociedade deve ser estimulada a se apropriar desses dados, transformando estatísticas em conhecimento aplicado.
O PIB, por si só, não conta toda a história de uma região. Mas, quando combinado a instrumentos como a MIP e indicadores trimestrais, passa a oferecer uma visão mais fiel das engrenagens que movem a economia. O grande desafio é transformar esse conhecimento em ação, planejando políticas que ampliem oportunidades, reduzam desigualdades e promovam desenvolvimento sustentável. Esse é o verdadeiro papel das estatísticas: apoiar escolhas coletivas mais conscientes.
Edna Morais Tresinari é mestre em economia e coordenadora na coordenação de Estudos Econômicos do IJSN