Governo do Estado do Espírito Santo

A arborização urbana e o futuro das cidades

É pertinente afirmarmos que arborização -sobretudo nas grandes metrópoles-, mesmo em pleno 2025, ainda é tratada no senso comum como elemento meramente estético e paisagístico.

Nas calçadas, praças e logradouros das cidades em geral, não raramente, árvores são vistas com olhar de algo que “dá trabalho” ou “problema”: folhas, que sujam, raízes que quebram concreto, galhos que exigem poda.

Nessa lógica, seguimos tratando-as como um enfeite ou acessório da paisagem urbana, não como um escudo climático com seu devido zelo, ignorando seus benefícios multifacetados: desde o equilíbrio ecológico, melhoria da qualidade do ar, manutenção da fauna urbana, redução de ilhas de calor, amenização da poluição sonora, mitigação de desastres ambientais e outros.

Esse erro crasso desconsidera décadas de acúmulo de estudos sobre a temática, e também a centralidade do assunto, ao pensarmos na necessidade da arborização como fator de bem-estar e qualidade de vida nas cidades do presente e do futuro, numa realidade mundial onde cada vez mais o adensamento populacional das regiões metropolitanas avança sobre as áreas verdes.

A relação entre cobertura arbórea e mitigação das mudanças climáticas é respaldada por métricas precisas, e a ciência é categórica em afirmar que os logradouros mais arborizados possuem menor variabilidade térmica, maior adaptabilidade e resistência aos extremos climáticos.

Portanto, pensar políticas públicas nesse sentido, faz-se cada vez mais crucial para a administração pública em todas suas esferas para pensar a vida nas grandes e médias cidades.

O documento “Características urbanísticas do entorno dos domicílios” do IBGE (2010; 2022), por exemplo, corrobora essa perspectiva. A arborização como fator preponderante para políticas públicas tal como outras infraestruturas e intervenções urbanas, equiparada a calçadas acessíveis, esgotamento sanitário e iluminação pública adequados.

Conforme exposto no documento, quanto mais arborizados são os logradouros das cidades no país, melhor é a estrutura urbana geral na localidade, expondo uma perspectiva estudada por outros autores no país e vinculando-as à qualidade de vida. I

sso atesta também a relação dessas infraestruturas, da arborização e a renda média em um determinado lugar, onde, quanto mais arborizado, maior a renda média, e vice-versa, dando-nos um diagnóstico das desigualdades socioespaciais presentes nas urbes a partir da arborização.

Essa perspectiva atesta e desvela urgência, sobretudo pois: cidades mais verdes podem ser cidades mais resilientes, acessíveis e justas para todos. Priorizar plantios de espécies nativas da Mata Atlântica – Ipê, Manacá-da-serra, Ingá-feijão, Pau-ferro, Sibipiruna, Jacarandá, Oiti – são alguns exemplos técnicos comprovados de plantios adequados e utilizados há décadas em projetos de arborização e reflorestamento no país.

Para além da importância das Unidades de Conservação no país, que já nos mostram a relevância da preservação e conservação da fauna e flora, uma arborização urbana adequada se faz também imperiosa, não apenas pelos seus benefícios na melhoria da qualidade de vida nas cidades, mas também por proporcionar um convívio com o meio e com a paisagem urbana mais aprazível para seus residentes e transeuntes.

Portanto, a promoção da qualidade de vida nas cada vez mais adensadas regiões metropolitanas do Brasil e do mundo no século XXI, carecem de atenção mais aprofundada sobre implementação de projetos de arborização urbana, reflorestamento e restauração da paisagem natural nas cidades (como exemplo, o projeto Floresta de bolso do botânico e paisagista Ricardo Cardim, ou casos como o implantado na cidade de Medellín na Colômbia).

Tendo isso em vista, fazer valer a Política Nacional de Arborização Urbana e os preceitos básicos constitucionais sobre o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado para todos, implantar o IPTU Verde, difundir a aplicação e criação dos Planos Diretores/Municipais de Arborização Urbana no ES, Estatuto da Cidade e tantas outras normativas legais seguem sendo um caminho fundamental para possibilitar um futuro mais sustentável nas cidades.


Igor Anacleto da Silva é Geógrafo, Pós-graduado em Gestão Ambiental, Mestrando em Geografia pela UFES e pesquisador na Coordenação de Estatística do Instituto Jones dos Santos Neves.

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