<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><rss version="2.0"><channel><title>Artigo - Entenda porque o feminicídio não é um bom indicador para violência doméstica contra mulheres</title><link>https://ijsn.es.gov.br:443/observatorios/observatorio-das-metropoles/artigos/compartilhar-Feminic%C3%ADdio-n%C3%A3o-%C3%A9-um-bom-indicador-para-viol%C3%AAncia-contra-mulheres</link><description>&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Por Thiago de Carvalho Guadalupe e Luiz Carlos Santos de Jesus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span&gt;Em 1994, a Conven&amp;ccedil;&amp;atilde;o Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Viol&amp;ecirc;ncia contra a Mulher, popularmente conhecida como a Conven&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Bel&amp;eacute;m do Par&amp;aacute;, chegou a seguinte defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a viol&amp;ecirc;ncia contra as mulheres: &amp;ldquo;qualquer a&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou conduta, baseada no g&amp;ecirc;nero, que cause morte, dano ou sofrimento f&amp;iacute;sico, sexual ou psicol&amp;oacute;gico &amp;agrave; mulher, tanto no &amp;acirc;mbito p&amp;uacute;blico como no privado&amp;rdquo;. Ou seja, trata-se de um tipo de viol&amp;ecirc;ncia que se manifesta de v&amp;aacute;rias maneiras e atinge as mulheres de forma ampla.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Nesse cen&amp;aacute;rio, a&amp;ccedil;&amp;otilde;es e pol&amp;iacute;ticas p&amp;uacute;blicas foram formuladas nos &amp;uacute;ltimos anos para combater essas viol&amp;ecirc;ncias. A Lei Maria da Penha (Lei n&amp;ordm; 11.340/2006) foi um marco importante para o combate e preven&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; viol&amp;ecirc;ncia contra a mulher no Brasil. Em 2015, a Lei n&amp;ordm; 13.104/2015 representou mais um avan&amp;ccedil;o, prevendo o feminic&amp;iacute;dio como circunst&amp;acirc;ncia qualificadora do crime de homic&amp;iacute;dio no C&amp;oacute;digo Penal.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O feminic&amp;iacute;dio &amp;eacute; um tipo de viol&amp;ecirc;ncia letal contra a mulher que pode ocorrer como desdobramento das outras formas de viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica tipificadas pela Lei Maria da Penha. No entanto, importante salientar que configura apenas um dos diversos tipos de viol&amp;ecirc;ncia aplicada contra as mulheres.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Buscar compreender a din&amp;acirc;mica criminal, que ocorre de forma espec&amp;iacute;fica contra mulheres, &amp;eacute; muito relevante para que as pol&amp;iacute;ticas p&amp;uacute;blicas neste campo de atua&amp;ccedil;&amp;atilde;o sejam assertivas. Entretanto, a&amp;ccedil;&amp;otilde;es advindas destas pol&amp;iacute;ticas poder&amp;atilde;o contribuir melhor para uma cultura de paz e qualidade de vida para as mulheres, a partir da utiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o correta de seus respectivos indicadores. No caso do indicador de feminic&amp;iacute;dio, o uso dele para resumir a viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica contra as mulheres n&amp;atilde;o &amp;eacute; correto.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A preocupa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; justificada quando n&amp;uacute;meros s&amp;atilde;o traduzidos de forma rasa para a sociedade, quando por exemplo, observa-se que o n&amp;uacute;mero de 11 feminic&amp;iacute;dios ocorridos em 2023 nos munic&amp;iacute;pios da Regi&amp;atilde;o Metropolitana da Grande Vit&amp;oacute;ria (Cariacica, Fund&amp;atilde;o, Guarapari, Serra, Viana, Vila Velha, e Vit&amp;oacute;ria), &amp;eacute; menor que o de 15 feminic&amp;iacute;dios ocorridos em 2021 tamb&amp;eacute;m na RMGV, significa 4 feminic&amp;iacute;dios a menos, mas n&amp;atilde;o quer dizer redu&amp;ccedil;&amp;atilde;o da viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica contra as mulheres nesse mesmo per&amp;iacute;odo.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Em todo o territ&amp;oacute;rio do Esp&amp;iacute;rito Santo, mais de 87 mil mulheres foram v&amp;iacute;timas de algum tipo de viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica entre 2019 e 2023 (*dados da SESP), com aumento de 10% no n&amp;uacute;mero de v&amp;iacute;timas nos &amp;uacute;ltimos dois anos. A maioria das v&amp;iacute;timas se concentra nos munic&amp;iacute;pios da Regi&amp;atilde;o Metropolitana da Grande Vit&amp;oacute;ria (RMGV). Somente nos &amp;uacute;ltimos cinco anos mais de 33 mil mulheres que residem na RMGV foram v&amp;iacute;timas de viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica. Os casos de feminic&amp;iacute;dio, por sua vez, permaneceram est&amp;aacute;veis no ES, com 35 v&amp;iacute;timas em 2022 e 2023, e m&amp;eacute;dia de 11,5 v&amp;iacute;timas na RMGV entre 2020 e 2023.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Dentre as tipifica&amp;ccedil;&amp;otilde;es da Lei Maria da Penha, o incidente mais registrado foi o de amea&amp;ccedil;a, em todos os anos. Somente em 2023 cerca de 2.311 mulheres sofreram algum tipo de amea&amp;ccedil;a. O descumprimento de medida protetiva e a les&amp;atilde;o corporal tamb&amp;eacute;m registraram elevado n&amp;uacute;mero de ocorr&amp;ecirc;ncias no per&amp;iacute;odo. Dentre os munic&amp;iacute;pios que comp&amp;otilde;em a RMGV, as cidades de Vila Velha, Serra e Cariacica registraram a maior quantidade de ocorr&amp;ecirc;ncias. Entre os munic&amp;iacute;pios do interior destacam-se Cachoeiro, Linhares, Colatina, Aracruz e S&amp;atilde;o Mateus que figuram entre os dez munic&amp;iacute;pios com mais v&amp;iacute;timas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Ap&amp;oacute;s um hist&amp;oacute;rico de neglig&amp;ecirc;ncia com essa problem&amp;aacute;tica, at&amp;eacute; a pouco no Brasil ouvia-se que essa era uma quest&amp;atilde;o de esfera privada, &amp;eacute; s&amp;oacute; lembrar do infeliz ditado popular &amp;ldquo;em briga de marido e mulher n&amp;atilde;o se mete a colher&amp;rdquo;, mesmo sendo pass&amp;iacute;vel de cr&amp;iacute;tica, a Lei Maria da Penha &amp;eacute; did&amp;aacute;tica em ilustrar a viol&amp;ecirc;ncia contra as mulheres.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Agora, para o entendimento desse tipo de criminalidade nos centros urbanos, &amp;eacute; preciso aprender a fazer uso das ferramentas corretas, para que o monitoramento e avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o destas pol&amp;iacute;ticas sejam eficazes e proporcionem maior seguran&amp;ccedil;a para a vida social independente de g&amp;ecirc;nero. N&amp;uacute;meros como o aumento de 17% de casos de estupro de mulheres no ES entre 2020 e 2023, e o de 54 mulheres vitimadas por dia por viol&amp;ecirc;ncia dom&amp;eacute;stica em 2023, exemplificam a necessidade de acompanhamento dessa quest&amp;atilde;o atrav&amp;eacute;s da complexidade que a mesma exige.&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Thiago de Carvalho Guadalupe&lt;/em&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&amp;eacute; doutorando em Pol&amp;iacute;tica Social, mestre em Sociologia, e Coordenador do Observat&amp;oacute;rio da Seguran&amp;ccedil;a Cidad&amp;atilde; do IJSN.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Luiz Carlos Santos de Jesus&lt;/em&gt;&lt;span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&amp;eacute; graduando em Ci&amp;ecirc;ncias Econ&amp;ocirc;micas pela UFES e estagi&amp;aacute;rio no Observat&amp;oacute;rio da Seguran&amp;ccedil;a Cidad&amp;atilde; do IJSN.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description></channel></rss>